Quem sou eu
- Andre Maurício
- Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma humana em suas relações interpessoais e consigo mesmo. Autor dos livros: O homem que virou calango (contos); Retratos Urbanos; Síndroma de Imunodeficiência Depressiva; Da dor do não, poemas; coautor de Caoticidade Urbanopoética do eu nulo, poesia; participação na 1ª Antologia da Confrafia: Nós, Poetas.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Caía a tarde
Em lágrimas outonais sobre os
telhados urbanos
Neste dia que já se
Fez saudade
Acariciando a face nua da rua e
Embebendo a todos com sua
inquietante melancolia
a noite que chegava em nuances
pictóricas
por trás dos arranha-céus
com suas antenas e para-raios
seria, talvez,
um refúgio para tantos
que cansados de si mesmo
tentam esconder-se
de suas inquietações
em vão
Da vida nada urbana, uma visão.
_Alô, é da rádio?
A voz soou agressiva e apressada. E sem dar tempo para o outro lado se
manifestar arrematou...cansei, minha senhora, cansei de ligar pra poliça... e
ela me dizê que num pode fazê nada. Porquê? ... Eu sei. Sabe porquê? Porque
nóis é pobe. Tá me entenden’o. A sua voz ficava cada vez mais nervosa. Óie,
passei a noite toda ligando pra poliça, ta me entenden’o. Esse fi da gota
serena fica fazen’o bagunça aqui na rua, na minha janela, todo dia. E num é de
hoje não. Tá me entenden’o. Sou trabaiadô, moça. Acordo todo dia cum galo
cantan’o, e esse poliça preguiçoso diz que tá sem viatura. Venha de ônibus,
ôxe. Eu vô trabaiá de ônibus. A gente aqui tamo revoltado. Todo dia esses
maconhero perturba nóis aqui dizen’o que vai matá a nóis. Que vai esfolá nóis.
Que quem manda na rua é eles. Pois, quem vai matá hoje sou eu. Vociferou gesticulando
os braços. A poliça nunca feiz nada. Mas hoje vô matááá. To cum ele todo
amarrado aqui no oreião, e vô acabá cum a raça desse fio da besta preta. Ofegante.
Ói, adescurpe, moça. Eu tô aperreado. Minha mulé foi s’imbora, levô meus fio,
levô até meu cachorrim. E ainda vem um fi da égua desse fazê bagunça na minha
porta. Eu num vô matá? Vô. Ói, tô disimpregado. Desde qu’ela foi s’imbora minha
vida se distrambelhou. Tô disimpregado. Num tenho istudo... Mas sô trabaiadô,
moça. Num fumo maconha, não.
Do outro lado da linha alguém balbuciou algo como
“tenha calma”.
_Carma, nada. Esse fi da besta preta faz bagunça aqui na rua há
muito tempo, ta me entenden’o. Óie, tomei uns goró de noite e agora vô arresorvê
na bala, do meu jeito. Se num tem poliça eu arresorvo na bala. Carma, nada. A
sinhora só sabe dizê isso. Carma... carma... carma coisa ninhuma. Minha vida já
tá esculhambada, mermo, vô esculhambá o
resto. Ói, eu gostava muito daquela nega. Ela mexia bem cum’s meu negoço... tu
é mulé, tu sabe do chamego. Aquela mulé num podia tê me deixado. Ói, ela levou
meus cinco fio. Pense nuns calanguim arretado. Nesse ínterim formou-se um
ajuntamento ao derredor com gritos de mata, esfola, e onde a raiva de alguns
contrastava com o olhar de penúria de outros. A turba é burra. Enquanto isso,
no chão, amarrado a um orelhão com uma cara de desespero um rapazote de uns 17
anos rogava amedrontadamente: num me mate, não. Por favor. Meu pai tem uma loja
no comércio. Eu sou de menor. Meu pai te dá um emprego. Ele é vereador. Ao
mesmo tempo o clamor misturava-se ao ódio. Me solte seu corno. Sua mulé foi s’imbora
porque você é froxo. Eu vou te matá, seu véio maluco.
MAAATA! MAAATA!
O tumulto
só crescia. Olhos e bocas num afã. A televisão já chegara, os repórteres de
rádio, o carrinho de picolé, o de CD pirata, os insultos, os apupos, as
palavras de ordem. Todo esse burburinho deixava o agressor e vítima mais
nervosos. Saiu na mídia não tardou para a polícia chegar com as sirenas em
alarde tentando dispersar a populacha. Em vão. O agressor, com o revolver em
punho, esbravejava: eu vou matáááá. E a populacha convulsionava: maaata! Maaata!
Esse safado me aperreou a noite toda. Minha mulé foi s’imbora, levou todos meu
fio, até meu cachorrim. Lágrimas. Agora eu vou matáááá, gritava batendo a arma
no peito. Enquanto isso, no chão, amarrado ao orelhão, a vítima, com o estupor
estampado na cara, os olhos esbugalhados como que antevendo os pássaros da
morte golpearem sua porta, como que sentindo as dores pela surra que talvez
venha a levar, como que sentindo o aço do projétil perfurando-lhe a pele,
cortando-lhe a carne, dilacerando-lhe os órgãos, como que sentindo o sangue
escorrendo-lhe em profusão ensopando-lhe a camisa já rota pelo uso, como que
sentindo os músculos desobedientes fraquejarem, as pernas indolentes
curvarem-se sem forças e cair com todo o peso de joelhos como a pedir perdão ao
seu agressor, e como que de supetão, em morte, pela dor última, meter a cara no
chão.
Mas ao mesmo tempo a presença da polícia recobrava-lhe o ânimo. Renovava-lhe
a esperança. Me ajudem pelo amor de deus, rogava. Esse filho da puta tá doidão.
Tá maconhado. Eu não fiz nada. Meu pai é rico, ele é vereador. Quase que
instantaneamente o agressor vociferava: Vô te matááá, fi d’uma égua. Larga a
arma! Ordenava a polícia. Maaata! Maaata! Ecoava. A vítima choramingando
repetia: meu pai é rico, moço. Ele te dá um emprego. A polícia ordenava. Eu
liguei várias veiz a noite toda e vocês num viero. Esbravejava agitando os
braços. Todos ao mesmo tempo em ordens, em lamúrias, em ameaças, dificultava a
comunicação, acirrando cada vez mais os ânimos. Levava a ira. Os gritos de maaata.
As ordens de calma. O tempo passando. O sol das dez horas. Os gritos da
populacha. Os policiais nervosos. A vítima. O agressor. A televisão. O rádio. As
crianças. O vendedor de CD pirata. A polícia. O agressor de arma em punho
ameaçante. A vítima em desespero, ora choramingante, ora desafiante. Os gritos.
A polícia. O sol das onze horas. O agressor de arma em punho com os olhos em vermelho
sangue, a boca em impropérios. A polícia. A vítima em desespero. O sol
causticante. A televisão. A multidão. O agressor. Eu vou matááá! A polícia aproximando-se. A
multidão. Os gritos. Os olhares. O desespero. O vendedor de CD. O agressor. A
arma apontada para a cabeça. A vítima. O olhar em desespero. A polícia. O
agressor. A televisão. O rádio. A vítima. Meu pai é rico. O coro. Maaata! Maaata!
Largue a arma. A polícia. O agressor. Eu vou matááá. Gritos. Largue a arma. Eu
vou matááá! A polícia. Um estampido. O agressor. Um grito. A correria. A televisão
filmando. O agressor. O sangue explodindo em jatos. A queda estatelada com a
cara no chão. O rosto em dor. O agressor. Um tiro no peito. Os olhos
arregalados pela dor. O sangue. A morte por fim. A televisão. A vítima. Um sorriso
de alívio respingado de sangue. Um olhar ainda amedrontado. Uma cusparada no
chão. Uma cutucada de pé. Uma imprecação. Um sorriso de deboche e uma
exclamação: Taí, otaro, fudeu-se.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Volteio ansiolítico de um paranoide
Larguei
do trabalho na repartição como de costume às 15h. O serviço público é realmente
uma mamata. Guardei todos os papéis e piquei a mula. O ar da rua com a toda a
carga de desejos, ansiedades, dores e amores estimula-me, sinto-me mais vivo,
mais... desejoso de me relacionar com meus pares. Ao mesmo tempo em que sinto o
desejo de relacionar-me, padeço com meu temor de travar amizades e
relacionamentos verdadeiros. Não aquele relacionamento onde há cumprimentos e
meneios de cabeça automáticos dados nos corredores e pontos de ônibus. Mas,
sim, aquele cheio de cumplicidade, de beleza, de desejos, de ardor, de perdão,
de orgasmos, de sim, de não. Não consigo. Sofro com isso. Quero verdadeiramente
conhecer pessoas, convida-las à minha casa, tomar um chopp numa mesa de bar, rir...
essas coisas. O burburinho urbano inspira-me a tal. Entretanto, não consigo. E
sofro com isso. Percorri todo o trajeto da repartição até o ponto de parada do
ônibus em elucubrações e em promessas de procurar um terapeuta. Adentrei no
ônibus. Acomodei-me junto a janela observando os passantes. É interessante como
inconscientemente na nossa rotina procuramos sempre o mesmo lugar, fazemos
sempre o mesmo caminho, sentamos sempre no mesmo lugar no cinema. Creio que,
talvez, em busca de uma segurança que o desconhecido não proporciona. No
destino, acomodei-me na mesma mesa, da mesma barraca, na mesma praia. Uma mesa
em um local que me permita ver e não ser visto de forma a não ver sorrisos que
me incomodam, a não travar diálogos onde não tenho nada a dizer, nestes casos,
penso, o melhor é não dizer nada. Apenas sorrir. O pragmatismo às vezes
perturba-me. O óbvio está causando-me enfado. ARGH! Pedi um chopp. Sorvi-o
rapidamente como se o último. A partir daí as horas transcorreram lentas entre
um comentário inútil com um garçom e outro. O movimento estava agitado, para
minha surpresa. Normalmente é mais calmo. Alguns garotos brincam com suas mães
na areia, mais a direita um casal se enamora, um outro n’água troca beijos
lânguidos e imagino que por sob a água haja um movimento mais frenético do que
aparentam. À esquerda alguns adolescentes batem uma pelada. Alguns homens sós,
algumas mulheres, também sós. Alguns casais em caminhada no calçadão e risos e
abraços e gargalhadas e olhares e eu já no quarto chopp a observar com a apatia
que me é peculiar e com desejos que me é peculiar, também, aqueles corpos
suados, reluzentes, seminus, bailando esvoaçantes ao meu derredor provocando em
mim sensações visuais e libidinosas levando-me em pouco tempo a perambular pelo
recôndito dos corredores de meus desejos imaginando, fantasiando, fazendo-me sentir
o eriçar dos pelos ao toque virtual daqueles corpos seminus encarnando ora a
vênus, em sua sensualidade idílica, envolvente; ora Luz del Fuego com seu
erotismo aflorado, pulsante, e permaneço assim, divagante, imaginante, compondo
um cenário que no meu cotidiano burocrático não consigo compor e sinto vontade,
é verdade, de fazê-lo. Os corpos ora a dois, ora a três, o que a mágica da
mente me propõe a criar, entrelaçados, suados, roçando-se em comunhão carnal
compondo um paralelismo somente rompido pelo perpendicularismo fálico-latejante-estocante
ora suaves como a estar ao sabor das marolas numa enseada quando a tarde já é saudade;
ora viris como cavalgaduras em tropel, salivando e ofegando e ronronando e
mordendo e tocando o corpo que comigo flutua suavemente sob a luz tépida de um
quarto que sem olhos nem ouvidos ouve e observa meus olhos semicerrados, meu
movimento crescente, pulsante, volumoso, voluptuoso como se o mundo fosse
somente o instante, fosse somente nós. O movimento vibratório é mesclado com
olhares e bocas sussurantes, úmidas, frenéticas. Neste momento minha mente
bloqueia a visão e meus movimentos agora são regidos e comandados pela inconsequência
fálica da minha consciência linfática. Aahhhh, que os deuses não de mim tirem o
prazer não consciente. Adoro isso. Mais
um chopp? – pergunta o garçom. Falo: _Ah,
sim. Claro. Mais um chopp. Sem levantar os olhos.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
O aço tornado Deus
O
aço tornado Deus.
Igualou-se
a Deus.
O
corpo exangue tombou de chofre no calçamento quente em desesperante agonia e
esvaindo-se em sangue chorava sobre a pedra derramando suas dores e alegrias
que, talvez, um dia, viesse a ter. Os
olhos aterrorizados observavam atônitos a carne cortada feito fato, abrindo-se,
expondo-se, mostrando a frágil fortaleza rompida, buscando além de si uma ponta
de meada, um fio que viesse içá-lo do abismo em que foi jogado. As narinas
bufantes como as de cavalgaduras em tropel, o corpo contorcido em dor, a cara
no chão – em dor, o sangue misturando-se a areia, as unhas crispando o paralelepípedo
– em dor, o corpo balbuciando seus lamentos últimos, a boca em gemidos, em dor,
ao mesmo tempo em que vociferava impropérios chorava a dor em lamentos
agoniantes, agonizando.
O
ajuntamento que se formou ao derredor, por catequese pseudossocial, chorava a
dor, compadecendo-se; questionava a dor, perquirindo-se; maldizia o infortúnio,
escarnecendo do pobre diabo que agonizava, gritava a esmo por um socorro que
teimava em não chegar. O tempo, despótico, seguia seu
curso sem “se”, sem “senão”. O frágil corpo de alma recalcitrante definhava ao
sol escaldante sobre o calçamento quente, em brasa. Seus olhos enevoados
vertiam lágrimas de dor. Não proferia mais palavras, apenas grunhidos.
Tudo
isso era sinônimo de um fim que atingiu o seu clímax
quando, não tendo forças, sua pobre alma em dor, solapa nas areias escaldantes
do inferno e do sangue putrefato de seus inimigos sorve um cálice, igualando-se
a eles; e nos seus olhos abertos refletiu-se a dor dos enjeitados ao tempo em
que suas unhas crispavam o chão e sua boca em silêncio exprimia seu último
sussurro seu corpo emudeceu, sua boca fechou, seus olhos cerraram-se em morte.
Silêncio. Está vazio
o espaço que fala por si só.
Vazio. Está silencioso o
espaço que fala por si só.
A turba, antes irrequieta, inquisitiva, penalizada, como que por inércia foi silenciando, dispersando-se, afinal tudo terminara sem se, sem senão. Todos se foram. Apenas um corpo ficou. No meio-fio encostado em
A turba, antes irrequieta, inquisitiva, penalizada, como que por inércia foi silenciando, dispersando-se, afinal tudo terminara sem se, sem senão. Todos se foram. Apenas um corpo ficou. No meio-fio encostado em
um poste,
acocorado, um corpo com rosto sofrido observava em silêncio, sem lágrimas em
seus olhos ou vingança. A tez carcomida pela ação incessante, inclemente,
despótica e voraz do tempo, emudecido, observava com os dedos entrelaçados como
que em oração. Talvez rogasse naquele instante um perdão, talvez. Nunca
saberemos. E consolando-se a si mesmo pela ausência, por aquilo que nunca foi, esperava,
agora, sozinho, o rabecão.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Quando o dia já é saudade
O silêncio
Envolvia
a sala
A
cortina balouçava
Suave
Ao
som das
Folhas
no jardim
A
penumbra reinante
Transporta-me
A
reminiscências
Que
um dia
Prometi
esquecer
E
que como um flash
Atormenta-me
Em
situações onde
Encontro-me
vulnerável.
Apartate-me
de mim
Oh,
dores
De
minha alma
O
som de passos no Soalho
Recobra-me
a realidade
Tento
na penumbra
Vislumbrar
algum vulto
Pura
imaginação.
Volto
o olhar para
A
janela.
A
rua em silêncio, molhada pela chuva
Fina
que caiu
Esconde-se
por
Trás
da cortina
Ligo
o rádio.
Ao
som de velhas canções
Ensaio
passos
De
um balé
Imaginário
Tal
ave deslizando
Sobre
o lago silencioso
Em
fim de tarde outonal
Quando
o dia já é saudade.
Sem
me aperceber
Adormeci
no sofá.
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