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Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma humana em suas relações interpessoais e consigo mesmo. Autor dos livros: O homem que virou calango (contos); Retratos Urbanos; Síndroma de Imunodeficiência Depressiva; Da dor do não, poemas; coautor de Caoticidade Urbanopoética do eu nulo, poesia; participação na 1ª Antologia da Confrafia: Nós, Poetas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Volteio ansiolítico de um paranoide



           
            Larguei do trabalho na repartição como de costume às 15h. O serviço público é realmente uma mamata. Guardei todos os papéis e piquei a mula. O ar da rua com a toda a carga de desejos, ansiedades, dores e amores estimula-me, sinto-me mais vivo, mais... desejoso de me relacionar com meus pares. Ao mesmo tempo em que sinto o desejo de relacionar-me, padeço com meu temor de travar amizades e relacionamentos verdadeiros. Não aquele relacionamento onde há cumprimentos e meneios de cabeça automáticos dados nos corredores e pontos de ônibus. Mas, sim, aquele cheio de cumplicidade, de beleza, de desejos, de ardor, de perdão, de orgasmos, de sim, de não. Não consigo. Sofro com isso. Quero verdadeiramente conhecer pessoas, convida-las à minha casa, tomar um chopp numa mesa de bar, rir... essas coisas. O burburinho urbano inspira-me a tal. Entretanto, não consigo. E sofro com isso. Percorri todo o trajeto da repartição até o ponto de parada do ônibus em elucubrações e em promessas de procurar um terapeuta. Adentrei no ônibus. Acomodei-me junto a janela observando os passantes. É interessante como inconscientemente na nossa rotina procuramos sempre o mesmo lugar, fazemos sempre o mesmo caminho, sentamos sempre no mesmo lugar no cinema. Creio que, talvez, em busca de uma segurança que o desconhecido não proporciona. No destino, acomodei-me na mesma mesa, da mesma barraca, na mesma praia. Uma mesa em um local que me permita ver e não ser visto de forma a não ver sorrisos que me incomodam, a não travar diálogos onde não tenho nada a dizer, nestes casos, penso, o melhor é não dizer nada. Apenas sorrir. O pragmatismo às vezes perturba-me. O óbvio está causando-me enfado. ARGH! Pedi um chopp. Sorvi-o rapidamente como se o último. A partir daí as horas transcorreram lentas entre um comentário inútil com um garçom e outro. O movimento estava agitado, para minha surpresa. Normalmente é mais calmo. Alguns garotos brincam com suas mães na areia, mais a direita um casal se enamora, um outro n’água troca beijos lânguidos e imagino que por sob a água haja um movimento mais frenético do que aparentam. À esquerda alguns adolescentes batem uma pelada. Alguns homens sós, algumas mulheres, também sós. Alguns casais em caminhada no calçadão e risos e abraços e gargalhadas e olhares e eu já no quarto chopp a observar com a apatia que me é peculiar e com desejos que me é peculiar, também, aqueles corpos suados, reluzentes, seminus, bailando esvoaçantes ao meu derredor provocando em mim sensações visuais e libidinosas levando-me em pouco tempo a perambular pelo recôndito dos corredores de meus desejos imaginando, fantasiando, fazendo-me sentir o eriçar dos pelos ao toque virtual daqueles corpos seminus encarnando ora a vênus, em sua sensualidade idílica, envolvente; ora Luz del Fuego com seu erotismo aflorado, pulsante, e permaneço assim, divagante, imaginante, compondo um cenário que no meu cotidiano burocrático não consigo compor e sinto vontade, é verdade, de fazê-lo. Os corpos ora a dois, ora a três, o que a mágica da mente me propõe a criar, entrelaçados, suados, roçando-se em comunhão carnal compondo um paralelismo somente rompido pelo perpendicularismo fálico-latejante-estocante ora suaves como a estar ao sabor das marolas numa enseada quando a tarde já é saudade; ora viris como cavalgaduras em tropel, salivando e ofegando e ronronando e mordendo e tocando o corpo que comigo flutua suavemente sob a luz tépida de um quarto que sem olhos nem ouvidos ouve e observa meus olhos semicerrados, meu movimento crescente, pulsante, volumoso, voluptuoso como se o mundo fosse somente o instante, fosse somente nós. O movimento vibratório é mesclado com olhares e bocas sussurantes, úmidas, frenéticas. Neste momento minha mente bloqueia a visão e meus movimentos agora são regidos e comandados pela inconsequência fálica da minha consciência linfática. Aahhhh, que os deuses não de mim tirem o prazer não consciente.  Adoro isso. Mais um chopp? – pergunta o garçom.  Falo: _Ah, sim. Claro. Mais um chopp. Sem levantar os olhos.
Escondo por trás 
de mim
nada além de
desejos
que são como um
espelho trincado
onde se vê apenas
fragmentos desconexos
de um todo

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

 
 
As flores choram
a sorte de um amor perdido
as mãos balançam ao vento
num aceno
os olhos escondem molhados
o não

como definição de dor.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014


...E agora
rogo as palavras
sua maior dor - o silêncio.


Transborde o cálice
de vãs pensamentos

vazio e silêncio é que de mim resta

Na parede de um branco nauseabundo - odeio branco,
um espelho translúcido por conta do tempo

Esparramado no sofá gasto pelo tempo
e uso
deleito-me em minha preguiça indolente.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O aço tornado Deus


O aço tornado Deus.

           O aço sibilou no espaço.
           O fio, frio e terrificante, ao cortar o espaço, emitiu um sibilo augúrio e em movimentos cortantes e rápidos, violentou, dilacerou o tênue cordão que une morte e vida, interrompendo, subtraindo violentamente esta.   

Igualou-se a Deus.

O corpo exangue tombou de chofre no calçamento quente em desesperante agonia e esvaindo-se em sangue chorava sobre a pedra derramando suas dores e alegrias que, talvez, um dia, viesse a ter.  Os olhos aterrorizados observavam atônitos a carne cortada feito fato, abrindo-se, expondo-se, mostrando a frágil fortaleza rompida, buscando além de si uma ponta de meada, um fio que viesse içá-lo do abismo em que foi jogado. As narinas bufantes como as de cavalgaduras em tropel, o corpo contorcido em dor, a cara no chão – em dor, o sangue misturando-se a areia, as unhas crispando o paralelepípedo – em dor, o corpo balbuciando seus lamentos últimos, a boca em gemidos, em dor, ao mesmo tempo em que vociferava impropérios chorava a dor em lamentos agoniantes, agonizando.

O ajuntamento que se formou ao derredor, por catequese pseudossocial, chorava a dor, compadecendo-se; questionava a dor, perquirindo-se; maldizia o infortúnio, escarnecendo do pobre diabo que agonizava, gritava a esmo por um socorro que teimava em não chegar. O tempo, despótico, seguia seu curso sem “se”, sem “senão”. O frágil corpo de alma recalcitrante definhava ao sol escaldante sobre o calçamento quente, em brasa. Seus olhos enevoados vertiam lágrimas de dor. Não proferia mais palavras, apenas grunhidos.  

Tudo isso era sinônimo de um fim que atingiu o seu clímax quando, não tendo forças, sua pobre alma em dor, solapa nas areias escaldantes do inferno e do sangue putrefato de seus inimigos sorve um cálice, igualando-se a eles; e nos seus olhos abertos refletiu-se a dor dos enjeitados ao tempo em que suas unhas crispavam o chão e sua boca em silêncio exprimia seu último sussurro seu corpo emudeceu, sua boca fechou, seus olhos cerraram-se em morte.

          Silêncio. Está vazio o espaço que fala por si só.

 Vazio. Está silencioso o espaço que fala por si só.
          A turba, antes irrequieta, inquisitiva, penalizada, como que por inércia foi silenciando, dispersando-se, afinal tudo terminara sem se, sem senão. Todos se foram. Apenas um corpo ficou. No meio-fio encostado em

um poste, acocorado, um corpo com rosto sofrido observava em silêncio, sem lágrimas em seus olhos ou vingança. A tez carcomida pela ação incessante, inclemente, despótica e voraz do tempo, emudecido, observava com os dedos entrelaçados como que em oração. Talvez rogasse naquele instante um perdão, talvez. Nunca saberemos. E consolando-se a si mesmo pela ausência, por aquilo que nunca foi, esperava, agora, sozinho, o rabecão.

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Quando o dia já é saudade



O silêncio
Envolvia a sala
A cortina balouçava
Suave
Ao som das
Folhas no jardim
A penumbra reinante
Transporta-me
A reminiscências
Que um dia
Prometi esquecer
E que como um flash
Atormenta-me
Em situações onde
Encontro-me vulnerável.
Apartate-me de mim
Oh, dores
De minha alma
O som de passos no Soalho
Recobra-me a realidade
Tento na penumbra
Vislumbrar algum vulto
Pura imaginação.
Volto o olhar para
A janela.
A rua em silêncio, molhada pela chuva
Fina que caiu
Esconde-se por
Trás da cortina
Ligo o rádio.
Ao som de velhas canções
Ensaio passos
De um balé
Imaginário
Tal ave deslizando
Sobre o lago silencioso
Em fim de tarde outonal
Quando o dia já é saudade.
Sem me aperceber
Adormeci no sofá.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Odeio silêncios que incomodam




Incomoda-me
Ter que falar tolices
Para parecer estar a vontade
Quando não estou.
Cuspo assuntos inúteis
Para uma conversa também, inútil,
Melhor seria, a meu ver,
Não dizer nada,
Apenas sorrir.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fragmentos do cotidiano


Fragmentos do cotidiano


O coveiro naquele dia fazia a transferência dos ossos de alguns mortos para o ossário a fim de liberar espaço nas catacumbas e permitir o enterro de mais alguns desafortunados. Quando retirava os ossos de uma das covas, uma mulher aparentando uns trinta e tantos anos, morena, os beiços grandes pintados de vermelho, um metro e sessenta de altura - talvez menos, um bucho grande, trajando um macaquito verde-bandeira bem acochado, um cinto marrom com uns cinco dedos de largura no meio do bucho, uma meia-calça preta, toma o crânio da mão do auxiliar e questiona: esta não é a cova do meu pai? ESTÃO FAZENDO O QUÊ COM A CABEÇA DE MEU PAI? A gente só tava. É MEU PAI. É A CABEÇA DE MEU PAI. Minha senhora a gente só tava. SÓ TAVA O QUÊ? O QUÊ? É MEU PAI. NEM OS MORTO PODE VIVER EM PAZ. Num chore não mulé. NUM CHORE NÃO O QUE? É MEU PAI. A gente só tava. É MEU PAI. Me dá essa cabeça sua maluca. A gente tem que terminá nosso selviço. Toma essa cabeça dela, lerdo. Oxe, porque eu? Porque eu to dentro da cova. N.Ã.O   T.O.Q.U.E   E.M   M.I.M. Calma dona. É MEU PAI. Pega logo essa cabeça. Deixa de conversa com essa maluca. NÃO TOQUE EM MIM COM ESSAS MÃOS PODRES. E a senhora, com a cabeça encostada nesse peitão. É MEU PAI. Pega logo essa cabeça, home. E se ela gritá. Se você não pegá quem vai gritá sou eu. Peste, só me faltava essa. Me dá essa porra.VOCÊ ME RESPEITE. Pegá ela, seu lerdo. Não, espera. É prá pegá ela ou não. Sim. Não. Me tira daqui primeiro. Pega essa maluca. Vá por ali, dê a volta e vê se não cai nas cova aberta. SE TOCAR EM MIM EU DOU ESCÂNDALO. EU VOU GRITAR. É MEU PAI. QUE ABSURDO MEXÊ NA COVA DOS MORTOS SEM ELES SABER. De quem é essa cova? É de Zabumba. Então é a irmã de Beto. Eita, é a mulé de Bodinho. Agora que me lembrei. Liga pra ele. Oxe, porque eu tenho que ligar se você é o coveiro e eu sou o ajudante. Só me faltava essa peste dessa catenga gorda, inchada, me aperreá. Me dá o telefone. Vôte, porque o meu? Tô sem crédito, lástima. Manda a prefeitura botá um telefone aqui, então. Só se for prá os defunto falar com tua mãe, né? Me dá logo o celular. Num gaste meus bônus não. É MEU PAI...

quarta-feira, 27 de junho de 2012