Quem sou eu
- Andre Maurício
- Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma humana em suas relações interpessoais e consigo mesmo. Autor dos livros: O homem que virou calango (contos); Retratos Urbanos; Síndroma de Imunodeficiência Depressiva; Da dor do não, poemas; coautor de Caoticidade Urbanopoética do eu nulo, poesia; participação na 1ª Antologia da Confrafia: Nós, Poetas.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Blog do Sávio Almeida: Gal Monteiro, André Maurício, Ciro Veras, Eduardo ...
Blog do Sávio Almeida: Gal Monteiro, André Maurício, Ciro Veras, Eduardo ...: Este texto foi publicado em Campus, suplemento do jornal O Dia, Maceió, Alagoas Dois dedos de prosa ...
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
O BLUES E O ZEPPELIN
O BLUES E O ZEPPELIN
(Para André Maurício)
por Geo Santos
(Para André Maurício)
por Geo Santos
A chuva cai contínua
Sobre á cidade
- Uma chuva fina nevada
Que queimava á pele nua
Sem a proteção da lã.
O asfalto impermeabilizado
Não suporta a fúria das águas
Inundando as galerias plúvias
E as ruas da cidade.
- Os corações aflitos
Bombeados de rumores
Nefastos
Levam aos ouvidos
Os noticiários do rádio:
- O mundo abraçou a guerra,
Aprisionando a alegria
Nos corações.
O inverno glacial
Numa avalanche
Vestiu o céu de cinza cobalto;
O silêncio pairou á brisa fria
Que caia;
- Nem os pombos saíram
Dos seus nichos
Para catar ás migalhas
Caídas no chão...
As pessoas caminham
Apressadamente
Indiferente a quem passa
Ao seu lado.
Não há alegria
Em suas faces lânguidas
A pressa entorpece
A mente fragilizada;
- A fome e a miséria
Estão de mãos dadas
Para brindar a taça da dor!
Tecidos em lã aquecem
Os corpos que se aventuram
A sair nas ruas.
- De súbito ao longe
Uma voz de mulher
Embala um Blues
- Um mantra
Iluminando á cidade
Que agora perplexa
Ver o Zeppelin indo embora
Deixando toda a população
Plácida.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
ME, COMIGO.
ME, COMIGO
“A astúcia de Baco me seduz
Num frenesi embriagatórioE eu me rendo
Ao sabor do vinho
Implacável é a consciência
Da noite com o seu silêncio voraz
“Black to black”
A canção angustiada da Amy
Devora a minha solidão
Aos goles e mais goles
O vinho gelado
Desce vertiginosamente
Goela abaixo
Ao som do pen-drive
Vindo da pequena caixa de som”
(Solidão sedada – Geo Santos)
Aos vizinhos há apenas alguns boa noite e boa tarde num
simulacro de boa vizinhança e educação. Nada além disso. Não que eu seja o tipo
do cara chato, metido ou esnobe, não, apenas tomei para mim uma introspecção e
carrego-a comigo. O terapeuta até já tinha me pedido para ser mais expansivo,
menos burocrático, mais dado às emoções e ao que os relacionamentos têm de
melhor: os abraços e os sorrisos.
Antenas parabólicas e Arranha-céus misturavam-se com o
horizonte plúmbeo no início da noite dificultando a definição do começo e fim
de cada um.
Voltei-me para dentro e observei a sala em silêncio. Vi as paredes
nuas e pensei em comprar um ou dois quadros. Quem sabe a colorida plasticidade
de um Romero Britto ou a escuridão poética de um Chen Bo. Não! Realidade.
Realidade. Qualquer dia entro em um shopping e compro uma tela daqueles artistas
que pintam e parece que os quadros são produzidos em série porque todos tem o mesmo
motivo abstrato aprendido em revistas que ensinam a pintar.
Lembrei-me de um vinho que havia comprado dias antes através
da indicação de um amigo. Na cozinha, peguei uma taça, coloquei um pouco do vinho, senti o aroma e o sorvi para apreciar o sabor. Voltei à sala e
deixei a meia luz. Enquanto no pen drive rolava a angústia de Amy, dirigi-me
novamente a varanda e fiquei a observar, saboreando o vinho tinto.
O horizonte, como sempre, mostrava-se taciturno.
Observando os prédios vizinhos com suas janelas abertas ou
fechadas, pensei quais vidas se escondiam por trás das cortinas. Era como se
estivesse a procurar algo para me distrair. O telefone vibrava insistentemente.
Desliguei-o. Queria estar comigo e só.
Meus olhos foram direcionados para uma janela onde um casal,
que a princípio parecia estar dançando, desenvolviam movimentos muito
particulares e sedutores. Recuei um pouco e me sentei para observar sem ser
visto.
O vinho, a música, o casal em movimento, a libido, o jeans sob
pressão, as mãos, tal veludo, deslizando sobre o peito nu como em um balé, os
pelos eriçando-se ao toque da derme; as narinas abrindo-se e fechando-se em
sincronia, os lábios úmidos, a boca em sons guturais e o corpo exalando um olor
somente perceptível aos adoradores de Vênus. Neste momento as mãos em movimento
pulsátil de vai-e-vem; os olhos focando o infinito na tentativa de domar o
tempo e perpetuar aquele instante; o torso contorcendo-se em movimentos sinuosos
para acomodar-se a velocidade da respiração e mãos - frenéticas - em movimentos
rápidos, traçando um diálogo entre olhos, boca e o casal.
Com a adrenalina em mim, insuflando minhas veias, as pernas
contorcendo-se, o corpo suado, o movimento das mãos em sim e em não e ao fim daquele
balé solitário, a emoção... em jatos.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
ESTADO DEPRESSIVO (PSICOTRÓPICOS)
DA PAREDE EM AMARELO-OCRE
DE REPENTE UM LAIVO DE
COR PÚRPURA ESCORRE
QUE SE ADENSA
FORMANDO UM CÍRCULO RUBRO
E DO CENTRO
UMA FLOR
DESPONTA COM AS
PÉTALAS MOSTRANDO RAROS
PIGMENTOS DE SUA
COR ORIGINAL – DE UM VERMELHO-FOGO INTENSO
E SE MOSTRA
AGORA DE UM ROSA CÁLIDO
DESPRENDENDO DA COROLA
ESBRANQUIÇADA
E DE CADA PÉTALA
QUE TOCAVA O PISO DE MÁRMORE ÉBANO
O SOM PRODUZIDO ASSEMELHAVA-SE A TROVÕES
QUE ECOAM POR TRÁS DAS NUVENS
E EXPLODE EM MEUS TÍMPANOS
E DO CLARÃO PRODUZIDO PUDE
PERCEBER QUE TAL FLÔR ERA DE
PLÁSTICO
NO ENTANTO A
CADA PÉTALA QUE CAÍA
UMA NOVA SURGIA
SÓ QUE MAIS DESFIGURADA QUE A ANTERIOR
ENALTECENDO O ESTADO DE MORBIDEZ EM QUE ME ENCONTRAVA NO LEITO
QUE NESTE MOMENTO PARECEU DIMINUIR
DEIXANDO MEUS PÉS SUSPENSOS
E ME VI ASSIM
A BEIRA DE UM PRECIPÍCIO
PROCUREI ME AGARRAR
A QUALQUER COISA
QUE ME DESSE SUSTENTAÇÃO
E MINHAS MÃOS SÓ ENCONTRAVAM O VAZIO
E SUBMERGI NO ESPAÇO
E GRITEI COM TODAS
AS FORÇAS QUE AINDA ME RESTAVAM
NÃO ME OUVI
SOMENTE AO PULSAR
RITMADO DO RELÓGIO
QUE SURGIA A CADA
LATEJAR DE MINHAS VEIAS
E SE ACELERAVA, SUFOCANDO-ME
E SE RETARDAVA, SUFOCANDO-ME
E DE POUCO EM
POUCO ÀQUELA FLOR FOI DESAPARECENDO
E O
LÍQUIDO VERTIDO
AGORA CONVERTIDO EM AREIA
INUNDAVA O PEQUENO QUARTO
CUJO ÚNICO ADORNO ERA
UMA XILOGRAVURA DE UM CRUCIFIXO
LOCALIZADO UM METRO E SETENTA
CENTÍMETROS ACIMA DO
PISO DE MÁRMORE ÉBANO
E DONDE ESTAVA NÃO PODIA
DISTINGUÍ-LO
E COMO A ESPERA DO FIM
ARREGALEI OS
OLHOS A ESPERA DO CORCEL
NEGRO DE OLHOS FLAMEJANTES
E NÃO SUPORTANDO
SEMICERREI OS OLHOS E
CLAMEI POR MINHA ALMA DÉBIL
E SOLAPEI DE BRUÇOS NO
PISO DE MÁRMORE ÉBANO
E PERMANECI ASSIM
LETÁRGICO
segunda-feira, 20 de abril de 2015
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Vendedor de DVD
Um matutim lá dos cafundó do Juda gosta muito de filme
americano e para sobreviver vende dvd pirata na cidade. Quando vão comprar o
filme ele conta logo tudo. Como é o filme, quem é o artista e quem é o bandido.
Tem gente que nem compra mais, depois de ouvir toda a estória desde o início
até o, como ele mesmo diz, “dé endi”.
_ O dvd
é o mermo preço ainda?_ Premero, como me ensinaro na iscola, a gente diz gódi monin. Oraitxe?
_ Ó,
seu abestado. Se tu vinhé cum essas fala, essas coisa, esses palavróro
miserento, pode dizê, que’u vô arredá o pé daqui agorinha mermo. Nóis é tudo do
mato, até tu que é fi de Marinita, aquela frebrenta que veve beben’o na minha
budega e nunca me paga.
_
Oraitxe. Mas essa estora de não pagá num é cumigo. Quem bebeu foi ela. Oraitxe?
Pode escolhê o filme que quisé, proque se não tivé eu mando fazê na hora. Oraitxe?
_ Continua
o mermo preço?
_ Trei dvd é faive dolari, meu
patrão.
_Oxi!
Agora danô-se. Num intendi nada.
_É faive
dolari, meu patrão. É cinco real. Ói, tenho dvd brasilêro, francei, italiano,
ingrei e de putaria. E é tudo originá._Vôte! Cum’é que pode sê originá se é pirata?
_Vô te expricá. Num tem muita diferença não. Pirata é quan’o o filme é copiado dos computadô. O caba vai lá nos computadô e grava o filme. Já o originá é diferente. É quan’o o dvd é copiado do originá. Gravado do computado é pirata; gravado do originá é originá. Óraitxe?
_Num sô
crente prá tá oraitxe o tempo todo.
_Eu preguntei
se tu tá intenden’o. Ô matuto burro, num intende nada de ingrei. Ó, me diz uma
coisa: tu gosta de qual filme?
_Eu
gosto muito de faroeste.
_Oxe!
Hoooomi, tu ta muito atrasado. Isso é do tempo do ronca. Num se faiz mais esse
tipo de filme não. O negoço agora é friquição científica. Oraitxe?
_Frequi
o quê?
_
Friquição científica. Aqueles filme que tem nave do espaço, aquelas coisa do
outro mundo, outros praneta. Tem aqueles bicho anssim que não é nem boitatá, nem
fogo corredô. É aqueles bicho arieninja. É coisa muito mais escalafobética. Oraitxe?
_Num
gosto disso não. Tem muita mintira.
_Oxe. É
bom demais, home._Deixa eu te fazê uma pregunta: us piqui ingri?
_O que, homi? Que bobônica é isso? Que palavrão da boba serena é esse?
_Us... piqui... ingri... eu tô preguntan’o se tu intendi ingrei.
_Oxe!
Num sei nem o portuguei, avali o ingrei. Proquê?
_Proque
o bom mermo é assistí em ingrei. Premero que eu num sei lê rápido aquelar
letrinha. Depois a dubrage as veiz num é boa. E quan’o cê tá lendo ar letrinha
num dá tempo de vê as figura e quan’o tá ven’o as figura num dá tempo de lê ar
letrinha. Ainda por cima me dá dô de cabeça e num dá tempo de vê o artista brigan’o
com o bandido. É por isso que eu só assisto o filme em ingrei. Oraitxe?
_Oxe! Ó,
o matuto. E tu intendi?
_As
veiz num intendo argumas palavra, mas aí é só óia a cara do artista e vê as
careta prá intendê.
_E tu intendi tudo que se diz no filme?
_É craro que num intendo tudo.
Mas dá prá fazê uma meia-sola. Por exemplo: num filme de briga quan’o o bandido
leva um coice que tora o pau da venta o qué que ele diz.
_Oxe! E
eu lá sei.
_Ele grita
na hora da raiva: foca íu! Foca íu! Aí eu pregunto: o que qué dizê?
_Como é
que vô sabê.
_Ele
diz: fi de rapariga.
_Vixe!
Num sei se é isso não. Mintira da bixiga, home.
_É
craro que é. Deixa eu te expricá. Quan’o cê tá numa briga e leva um murro na
cara o qué que cê diz.
_Oxe!
Grito logo: fi de rapariga, vô de torá no meio feito palito de foscri, fi da
gota serena.
_Num te
dixe! Num te falei! Fi de rapariga. Tu tem que intendê o seguinte. É que lá na
língua dos ingrei as palavra num é ingual a nossa. As veiz ela diz uma coisa,
mar num é essa coisa é outra coisa que ela qué dizê. Leruaitxe? Intendesse?
_Oxe!
Intendi nada, não. Mar vamu lá, diga outra prá vê se eu acerto.
_Quan’o
o artista pega a artista no braço, enrrola ela ansim feito cobra, óia no zoio
dela, mela os beiço de cuspe e fala “ai lovi”.
_Oxe, facim,
facim. Só pode sê: tô doidxo prá te cumê.
_Ô
peste burro. Isso num é filme de putaria não. Preste atenção a pronunça: ai-ló-vi...
fazendo biquinho anssim... ai-ló-vi... ele tá dizen’o “eu amo-le”.
_Oxe,
home! Isso é muito compricado. Aprefiro o meu portuguei mermo que a gente diz o
que é e acabô-se.
_Ós pequi ingri, leruaitxe.
_ E agora o que foi?
_ Que filme que tu qué?
_ Me dá de putaria mermo. Pelo
meno num tenho que vê ar letrinha e intendo tudo.
_ Homi cum homi, mulé cum mulé ou
mulé cum home?
_ Tem que tê mulé e homi. E bote
num saquim prá minha mulé num vê.
_ É faive dolari.
_ Tome aí teu dolari.
_ Muito tânquiu.
_ Ai dento.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
O ASSASSINO DO SOBRETUDO DE POLIETILENO PRETO.
Assassinato sob a lua minguante.
A noite caía apressada sobre o
casario da cidade. Nos arranha-céus, nas esquinas, nos postes, as luzes, uma
após a outra acendem-se, iluminando as ruas. As lojas do centro comercial vão
cerrando suas portas. As ruas enchem-se de vidas apressadas.
Da mesma forma que se fez, o
ajuntamento desfez-se com o passar das horas.
O silêncio aos poucos envolveu as
ruas deixando-a um pouco assustadora. O trabalho no restaurante, hoje, demorou
mais do que o habitual. Já havia passado por praticamente todas as funções
dentro da empresa, atualmente era caixa. Faltava conhecer o financeiro, seu
objetivo naquele momento, e aí estaria pronta para abrir o seu próprio. Era sonho
de há muito acalentado. Os olhos brilhavam quando se via no salão em volta das
mesas ocupadas e o vai-e-vem dos garçons e o sorriso das pessoas e o cheiro da
comida. Isto era ainda um sonho compartilhado com tantos quanto conhecera e com
seus pais quando vivos.
O alarme do celular trouxe-a de
volta a realidade. Precisava fechar as portas. O relógio marcava 20h00. Era demasiado
tarde para sair dali naquela região. A noite tudo parecia mais assustador.
Observou através da vitrine antes
de sair. O ponto de ônibus ficava a poucas quadras dali. Visualizou mentalmente
qual caminho seguir pra evitar ruas desertas, mas o adiantado da hora a fêz
optar pelo caminho mais curto. Este seria também o mais deserto. Fechou a porta
e pôs-se a caminho. Era uma morena bonita. Seus cabelos cacheados e seu sorriso
aberto angariavam-lhe elogios de homens e mulheres também. Sentia-se feliz. Desde
que viera do interior para tentar a sorte, a vida tem sido de trabalho e
estudo. O pensionato não é dos melhores, mas precisa poupar o máximo possível para
poder abrir o seu sonho. Filha única de pais já falecidos poucas amizades e
muito trabalho. Uma praia e um cinema ocasionais. Seu foco, seu objetivo, não
podia esquecer. Às vezes chorava, às vezes sorria. O seu ser, só, era um misto
de liberdade e prisão.
Um cão revirando o lixo
assustou-a. Precisava tomar cuidado. Eram tempos de medo, segundo a imprensa, e
não queria correr riscos. Era a primeira vez que saía àquela hora. Sempre procurara
os horários de maior movimento. Olhou para trás. Pensou ter ouvido passos. Ninguém.
Imaginação apenas. Seus olhos e ouvidos ficaram mais atentos.
A rua neste momento parecia
comprimi-la em seus medos e angustias. Num poste uma luz piscou e apagou-se escurecendo
a rua. A cada passo parecia que o chão, gelatinoso, engolia seus pés. Medo. Pensou
em ligar para alguém. Quem? Era o preço.
A rua parecia estreitar-se
abafando-lhe e sufocando-lhe o peito. Sentiu medo. Lembrou que há um maníaco solto
na cidade. Não queria ser ela a próxima vítima. Pensou em seus sonhos. Olhou para
trás. Interessante como os olhos veem de acordo com o medo. Faltava apenas um
quarteirão para o destino. O medo nos trai.
Uma chuva fina começou a cair. Soltou
uma imprecação. Pensou ouvir passos. Pensou em correr. Uma das vítimas foi
encontrada pelas redondezas. Não queria ser a próxima. Olhou novamente para
trás a fim de perscrutar o ambiente. Nada atrás de si. Ao se voltar para a
frente sentiu a pressão de dedos maléficos em sua garganta. Sentiu o chão
fugir-lhe aos pés. O desespero lhe tomou o coração. O horror inundou-lhe os
olhos. Não conseguia gritar. De sua boca apenas grunhidos. Em seus olhos o
horror. Em seus olhos a tristeza. A dor que sentia não era pela pressão
daquelas mãos assassinas. Sua dor era pelo que elas lhe roubavam, pelos sonhos,
pela vida. Uma lágrima, sua última, escorreu em filete de seus olhos misturando-se
às gotas da chuva anunciando seu fim. Um baque surdo no chão foi o último som a
ser ouvido.
O algoz, do sobretudo, acendeu um
cigarro, sorveu um trago e se pôs a caminho. No céu a lua minguante, no rosto um
sorriso leve e na boca o cigarro.
A rua em silêncio chora pelos
sonhos roubados.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
REMINISCÊNCIAS, QUE É O QUE DE MIM RESTA, CORROEM-ME A ALMA.
Dali
donde me encontro, na janela, em um quarto do terceiro andar, observo o pátio
abaixo de mim que se encontra só. Como a mim. Tem sido assim desde há muito.
Não me recordo de quando, apenas lembro que foi no outono, período em que as
árvores desnudam-se, que adentrei pela primeira vez aqui, donde somente eu saí,
e que se tornou a partir de então, um local de idas e vindas. Nossas vidas, tal
qual lago em fim de tarde que espelha o ocaso e beija com suas águas tépidas e
calmas um cisne que desliza indolente sobre o espelho d’água, era,
simplesmente, amor. Amor este que refluía de nossos corpos e embebia o ambiente
e inebriava a todos que nos circundava. Éramos felizes. Não que tenhamos deixado
de sê-lo a partir dali, mas o amor despiu-se da felicidade e travestiu-se da
agonia e da compaixão. Este sentimento, a compaixão, eivado de ambiguidade, que
enobrece a quem doa e humilha a quem recebe foi minha companhia mais próxima e
sugou todo o amor que havia em mim. A ti, como alívio, o fim. A mim, órfão... dor,
desgraça e solidão foi o que restou.
Do
tempo já assumi minha subserviência e já não sofro mais e já não vivo mais.
Do dia apenas uma luminescência
incipiente que teima em me despertar para a realidade.
Da noite que me acometeu o
espírito e absorveu tudo de mim, malgrado-a por não me ter permitido fitar os
olhos daquela que me permitiam ver o mundo por mais tempo; mas, também, bendigo-a
por me permitir o sonhar e me aproximar do que um dia foi e por me esconder do
que hoje não é.
Dos amigos que conquistei,
propositalmente, afastei-os todos, um após o outro, sem pretexto, para que não
acompanhassem a minha definha e não se compadecessem de mim. Ojerizo a
compaixão.
Reminiscências, que é o que de
mim resta, corroem-me a alma.
De há muito que deambulo por este
lugar em busca do que perdi. Inicialmente maculado de esperanças, mas o tempo
etéreo, irresoluto, fez dissipar aquela enchendo-me a alma e a vida de
tristeza, melancolia e desesperança. A esta, não posso permitir a vitória, sob
pena de admitir que a morte golpeie minha porta e se aposse de meu espirito. Em
vão. Herculeamente tento resistir, mas devo confessar com grande tristeza, que
a vitória não me será companheira. Em lixo, a mim custa reconhecer pelo que
fui, me transformei após ver-te refastelar-se com o banquete da morte e
enternecida beijar-te a face.
As paredes dali donde me encontro
já não mantêm a cor original. Esvaneceram com o tempo. Como a mim. A mobília
carcomida pela ferrugem já não mais se presta. No salão principal, nos
corredores, nos quartos, na sala de choque que conheço mais do que a mim próprio,
o que se reflete é a máscara da tristeza e da solidão. Contraditoriamente, o
que antes era vivo, multifacetado, hoje agoniza e chora em dor pela ausência e
pelo silêncio de tantos. O drama que ontem aqui era escondido não difere do que
se esconde hoje.
Onde estás, ó, amante doce e
terna que me encobrias e me devorava dos anos a vida em mais doce alegria. Onde
estás? Pergunto-me melancólico.
Aqui
donde me encontro, da janela do 3º andar, observo o pátio - que tanto conhece meus passos, taciturno,
ignorando-me com sua empáfia, está só também. Como a mim.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
O Assassino do Sobretudo de polietileno preto - Assassinato sob a chuva rala
A chuva fina e intermitente que
caía produzia um espelho na rua onde os únicos reflexos eram seus medos e suas
angustias.
Dali donde se encontrava, na
esquina, recostado na parede, sob a marquise, com a luz opaca da lua
camuflando-o e travestido com um sobretudo de polietileno preto, podia divisar
todo o movimento nas quatro direções. Precisava apenas espiar e esperar. Ele
sabia que aquela era a hora. O tremor nos lábios, o olhar nervoso, a respiração
ofegante denunciavam sua condição de completa submissão a um estado que ele
próprio sabia não ser forte o bastante para superar. Tornara-se incontrolável. Não
queria em sua sã consciência fazer aquilo, é verdade, mas tinha de fazê-lo. As
ruas, os becos, a luminescência parda da noite, tudo ali contribuía e o
incitava. Amainar sua ânsia era condição subjacente para diminuir seu estado de
consciência deplorável naquele momento. Olhou o relógio: 2:36. Uma moto cruzou
a rua em velocidade. Não se distraiu. Observou as casas pequenas e imaginou
suas vidas, por trás dos muros, também pequenas.
Lembrou a primeira vez. Como em
vídeo tape viu-se a si próprio esparramado no sofá a ver televisão. Algo o
incomodava naquela noite. A insônia, talvez. Não sabia. Nunca soube. Era
inverno. A chuva fina espelhava a rua. Viu seu semblante sereno, seu olhar
tranquilo. Seguiu a si mesmo quando levantou e perscrutou a rua antes de abrir
a porta. A rua em silêncio, estava agora nua. Caminhou a passos lentos
encoberto pela sombra da noite. Na praça que ficava a poucos metros dali
acendeu um baseado. Na primeira tragada, deliciando-se com o roçar dos lábios
no papel num simulacro de beijo, aspirou a fumaça com volúpia abraçando-a em
seu peito como alguém abraça a outrem de saudades e baforou observando a fumaça
evoluir pelo espaço desenvolvendo movimentos aleatórios, dançando ao sabor da
brisa e da imaginação, compondo imagens que só a puerilidade de uma criança é
capaz de perceber. Ficou assim por minutos, saboreando o instante,
deleitando-se com o silêncio, observando o farfalhar das folhas como se o tempo
inerte estivesse. Ouviu vozes e risos. Inconscientemente circundou a árvore
onde estava recostado para não ser visto. Não queria naquele momento traçar uma
conversa inútil com pessoas, também inúteis, cheirosas a álcool. Acompanhou-os
com a vista até desaparecerem do raio de visão.
Observou a fachada de sua casa
deteriorada pelo desleixo, como a si. Isto o fez lembrar de que quando criança,
naquela mesma casa, as mãos brutas de seu pai, o cheiro de álcool, sua mãe em
lágrimas, sua mãe em dor. O fim. E o inferno que viria após este dia. Definitivamente
precisava sair dali. Os vizinhos, aqueles móveis rotos, aquele cheiro
amofinado, aquelas fotos de família simulando um lar feliz que não representava
a realidade do que foi, o entediavam. Ficou imerso no não-ser de sua
não-existência. Ao sorver sua última tragada não se deu conta de que alguém se
aproximava e com um movimento de defesa rápido cravou suas mãos no pescoço e
pressionando com força e violência não permitia reação. Nos olhos da vítima via
a si próprio, via os dedos de seu pai num abraço mortal, via a dor de sua mãe, viu
o temor que sentiu naquele e após aquele dia. Viu-se afastando-se em silêncio e deixando atrás de si o silêncio
do não-existir.
O silêncio foi quebrado. A linha
tênue do tempo que une sonho e realidade foi rompida trazendo-o a realidade por
passos na calçada. Olhou o relógio: 2:39. Espreitou e lançou-se como algoz,
esganando sua vítima com força e violência sem permitir reação, sem temor ou
tremor. Olhares fixos. Bocas mudas. Tudo como dantes.
Tendo o silêncio e a noite e a
rua por testemunha, após poucos minutos, e com a quietude da vítima, lançou-a
ao chão produzindo um som abafado. Na vítima, os olhos intumescidos pela dor e
na boca um grito de dor... silenciado.
Acendeu
um cigarro, ajeitou o sobretudo de polietileno preto e com a luz opaca da lua camuflando-o desceu
a rua em silêncio fitando sua própria sombra na calçada molhada. Seus olhos
serenos, não traziam raiva, não traziam medo, na boca o cigarro e um sorriso
leve.
A chuva
fina que caía chorava a dor do não-existir.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Na sala de espera
Putz!... não faz isso, não! Você não gosta? Adoro. Por isso
que eu faço. Eu gosto, mas aqui não. Por que? Tem muita gente. Eles não estão
nem olhando. É? Mas é perigoso. Qual nada. Você já imaginou a vergonha? Estão
todos no celular, ninguém tá olhando. Justamente, alguém pode estar filmando. E
daííí, com essa tensão tudo fica mais gostoso. Eu sei, mas tome cuidado. Né
gostoso? É. Mas...pare! Não! Aquela mulher ali da frente acho que percebeu.
Qual? A morena gorda? Claro, só tem ela na nossa frente. Qual nada. Ela
percebeu sim. Duvido. Veja como ela olha pra gente. Aposto que ela tá é gostando
de ver. Tem muita gente aqui, hoje. Pare de se preocupar. Estou tentando. Deixe-me
fazer de novo. Aperte devagar. Está gostoso? Demais. E você queria que eu
parasse. Isso, circula e aperta. Você é danadinho. Número 23. É o seu? Não, o
meu é 26. A gorda continua olhando. É? Olha o que eu vou fazer. Ei... ei... ela
tá desconfiada. Relaxe que ela tá de olho fechado. Se você fizer isso ela vai
ter certeza. Fique frio que tá todo mundo ligado na TV. E se ela fizer
escândalo? Não vai, não. A gente sai daqui direto pra delegacia. Eu acho que
ela tá se deliciando. E se tiver circuito interno e cair na internet? Que nada.
Eu aposto como ela tá danada imaginando o que a gente tá fazendo. Que fique só na
imaginação. Para, tira a mão dai. Por quê? Você tem que respeitar as pessoas.
Que naaaada. É perigoso. O que quero é sentir o ... número 24. Porque você
sorriu? Por nada. Ela olhou pra gente e sorriu. Número 24. E se ela achou que...
a gente... 24. Não achei graça nenhuma. Se ela desconfiou é problema dela. Ela
tá digitando alguma coisa. Esquece ela. Deve estar comentando com alguma amiga.
Deixa de teu estresse. Humpf! Não tem ninguém aqui olhando pra gente. Ok, vou
ficar bem. Relaaaxe. Tudo bem, tudo bem, vou relaxar. Ótimo, assim é melhor. E
se ela viu a sua mão? Onde? Não sei, tô nervoooso. É claro que ela não viu
nada. Viu sim. Viu não. Viu você com a mão aqui e desconfiou. Putz! Que neura. Será
que foi porque você sorriu na hora do 24. Acho que sim. Seu senso de humor é
ridículo. E você é um medroso. E você é um b.a.b.a.c.a. Mas você gosta. Claro
que gosto. Então relaxe um pouco. Vou tentar. Feche os olhos. Tá bom. Os dois.
Tô fechando. Veja como é bom. Aperta com mais força. Isso, mantenha os olhos
cerrados. Como é bom... Número 25. A gorda saiu? Não. Qual o número dessa...
gorda? Feche os olhos. Tô fechando. Beleza. Hum! Como é bom. Delícia né? Adoro
isso. Vou mais rápido. Isso... Número 26. Ih, lascou tudo. O que houve? É o meu
número. Lascou mesmo. E agora como é que vou levantar e passar na frente dessa gorda. E eu sei lá. Caraca.
Te vira, é contigo e a sorte. Eu disse pra você parar. Vou tomar um cafezinho.
Não, não saia agora não. Número 26. Você levanta primeiro e vou atrás de você.
Tá louco. Foi você quem começou isso tudo. Sim, mas você vir trás de mim, assim,
é complicado. Seu babaca. Essa gorda vai pensar o que de mim? Caraaaca. Te vira. Como vou levantar assim
desse jeito... Número 26. Essa senhora vai na minha vez. Vai perder a sua vez?!
A senhora pode ir no meu lugar. Você não quis me ajudar. Eu fico com o seu número.
Qual o número dela? 69.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Poeticamente: Fragmentos de um dia qualquer.
Poeticamente: Fragmentos de um dia qualquer.: O coveiro naquele dia fazia a transferência dos ossos dos falecidos para o ossário a fim de liberar espaço nas catacumbas e permitir o ent...
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