Quem sou eu
- Andre Maurício
- Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma humana em suas relações interpessoais e consigo mesmo. Autor dos livros: O homem que virou calango (contos); Retratos Urbanos; Síndroma de Imunodeficiência Depressiva; Da dor do não, poemas; coautor de Caoticidade Urbanopoética do eu nulo, poesia; participação na 1ª Antologia da Confrafia: Nós, Poetas.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Vendedor de DVD
Um matutim lá dos cafundó do Juda gosta muito de filme
americano e para sobreviver vende dvd pirata na cidade. Quando vão comprar o
filme ele conta logo tudo. Como é o filme, quem é o artista e quem é o bandido.
Tem gente que nem compra mais, depois de ouvir toda a estória desde o início
até o, como ele mesmo diz, “dé endi”.
_ O dvd
é o mermo preço ainda?_ Premero, como me ensinaro na iscola, a gente diz gódi monin. Oraitxe?
_ Ó,
seu abestado. Se tu vinhé cum essas fala, essas coisa, esses palavróro
miserento, pode dizê, que’u vô arredá o pé daqui agorinha mermo. Nóis é tudo do
mato, até tu que é fi de Marinita, aquela frebrenta que veve beben’o na minha
budega e nunca me paga.
_
Oraitxe. Mas essa estora de não pagá num é cumigo. Quem bebeu foi ela. Oraitxe?
Pode escolhê o filme que quisé, proque se não tivé eu mando fazê na hora. Oraitxe?
_ Continua
o mermo preço?
_ Trei dvd é faive dolari, meu
patrão.
_Oxi!
Agora danô-se. Num intendi nada.
_É faive
dolari, meu patrão. É cinco real. Ói, tenho dvd brasilêro, francei, italiano,
ingrei e de putaria. E é tudo originá._Vôte! Cum’é que pode sê originá se é pirata?
_Vô te expricá. Num tem muita diferença não. Pirata é quan’o o filme é copiado dos computadô. O caba vai lá nos computadô e grava o filme. Já o originá é diferente. É quan’o o dvd é copiado do originá. Gravado do computado é pirata; gravado do originá é originá. Óraitxe?
_Num sô
crente prá tá oraitxe o tempo todo.
_Eu preguntei
se tu tá intenden’o. Ô matuto burro, num intende nada de ingrei. Ó, me diz uma
coisa: tu gosta de qual filme?
_Eu
gosto muito de faroeste.
_Oxe!
Hoooomi, tu ta muito atrasado. Isso é do tempo do ronca. Num se faiz mais esse
tipo de filme não. O negoço agora é friquição científica. Oraitxe?
_Frequi
o quê?
_
Friquição científica. Aqueles filme que tem nave do espaço, aquelas coisa do
outro mundo, outros praneta. Tem aqueles bicho anssim que não é nem boitatá, nem
fogo corredô. É aqueles bicho arieninja. É coisa muito mais escalafobética. Oraitxe?
_Num
gosto disso não. Tem muita mintira.
_Oxe. É
bom demais, home._Deixa eu te fazê uma pregunta: us piqui ingri?
_O que, homi? Que bobônica é isso? Que palavrão da boba serena é esse?
_Us... piqui... ingri... eu tô preguntan’o se tu intendi ingrei.
_Oxe!
Num sei nem o portuguei, avali o ingrei. Proquê?
_Proque
o bom mermo é assistí em ingrei. Premero que eu num sei lê rápido aquelar
letrinha. Depois a dubrage as veiz num é boa. E quan’o cê tá lendo ar letrinha
num dá tempo de vê as figura e quan’o tá ven’o as figura num dá tempo de lê ar
letrinha. Ainda por cima me dá dô de cabeça e num dá tempo de vê o artista brigan’o
com o bandido. É por isso que eu só assisto o filme em ingrei. Oraitxe?
_Oxe! Ó,
o matuto. E tu intendi?
_As
veiz num intendo argumas palavra, mas aí é só óia a cara do artista e vê as
careta prá intendê.
_E tu intendi tudo que se diz no filme?
_É craro que num intendo tudo.
Mas dá prá fazê uma meia-sola. Por exemplo: num filme de briga quan’o o bandido
leva um coice que tora o pau da venta o qué que ele diz.
_Oxe! E
eu lá sei.
_Ele grita
na hora da raiva: foca íu! Foca íu! Aí eu pregunto: o que qué dizê?
_Como é
que vô sabê.
_Ele
diz: fi de rapariga.
_Vixe!
Num sei se é isso não. Mintira da bixiga, home.
_É
craro que é. Deixa eu te expricá. Quan’o cê tá numa briga e leva um murro na
cara o qué que cê diz.
_Oxe!
Grito logo: fi de rapariga, vô de torá no meio feito palito de foscri, fi da
gota serena.
_Num te
dixe! Num te falei! Fi de rapariga. Tu tem que intendê o seguinte. É que lá na
língua dos ingrei as palavra num é ingual a nossa. As veiz ela diz uma coisa,
mar num é essa coisa é outra coisa que ela qué dizê. Leruaitxe? Intendesse?
_Oxe!
Intendi nada, não. Mar vamu lá, diga outra prá vê se eu acerto.
_Quan’o
o artista pega a artista no braço, enrrola ela ansim feito cobra, óia no zoio
dela, mela os beiço de cuspe e fala “ai lovi”.
_Oxe, facim,
facim. Só pode sê: tô doidxo prá te cumê.
_Ô
peste burro. Isso num é filme de putaria não. Preste atenção a pronunça: ai-ló-vi...
fazendo biquinho anssim... ai-ló-vi... ele tá dizen’o “eu amo-le”.
_Oxe,
home! Isso é muito compricado. Aprefiro o meu portuguei mermo que a gente diz o
que é e acabô-se.
_Ós pequi ingri, leruaitxe.
_ E agora o que foi?
_ Que filme que tu qué?
_ Me dá de putaria mermo. Pelo
meno num tenho que vê ar letrinha e intendo tudo.
_ Homi cum homi, mulé cum mulé ou
mulé cum home?
_ Tem que tê mulé e homi. E bote
num saquim prá minha mulé num vê.
_ É faive dolari.
_ Tome aí teu dolari.
_ Muito tânquiu.
_ Ai dento.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
O ASSASSINO DO SOBRETUDO DE POLIETILENO PRETO.
Assassinato sob a lua minguante.
A noite caía apressada sobre o
casario da cidade. Nos arranha-céus, nas esquinas, nos postes, as luzes, uma
após a outra acendem-se, iluminando as ruas. As lojas do centro comercial vão
cerrando suas portas. As ruas enchem-se de vidas apressadas.
Da mesma forma que se fez, o
ajuntamento desfez-se com o passar das horas.
O silêncio aos poucos envolveu as
ruas deixando-a um pouco assustadora. O trabalho no restaurante, hoje, demorou
mais do que o habitual. Já havia passado por praticamente todas as funções
dentro da empresa, atualmente era caixa. Faltava conhecer o financeiro, seu
objetivo naquele momento, e aí estaria pronta para abrir o seu próprio. Era sonho
de há muito acalentado. Os olhos brilhavam quando se via no salão em volta das
mesas ocupadas e o vai-e-vem dos garçons e o sorriso das pessoas e o cheiro da
comida. Isto era ainda um sonho compartilhado com tantos quanto conhecera e com
seus pais quando vivos.
O alarme do celular trouxe-a de
volta a realidade. Precisava fechar as portas. O relógio marcava 20h00. Era demasiado
tarde para sair dali naquela região. A noite tudo parecia mais assustador.
Observou através da vitrine antes
de sair. O ponto de ônibus ficava a poucas quadras dali. Visualizou mentalmente
qual caminho seguir pra evitar ruas desertas, mas o adiantado da hora a fêz
optar pelo caminho mais curto. Este seria também o mais deserto. Fechou a porta
e pôs-se a caminho. Era uma morena bonita. Seus cabelos cacheados e seu sorriso
aberto angariavam-lhe elogios de homens e mulheres também. Sentia-se feliz. Desde
que viera do interior para tentar a sorte, a vida tem sido de trabalho e
estudo. O pensionato não é dos melhores, mas precisa poupar o máximo possível para
poder abrir o seu sonho. Filha única de pais já falecidos poucas amizades e
muito trabalho. Uma praia e um cinema ocasionais. Seu foco, seu objetivo, não
podia esquecer. Às vezes chorava, às vezes sorria. O seu ser, só, era um misto
de liberdade e prisão.
Um cão revirando o lixo
assustou-a. Precisava tomar cuidado. Eram tempos de medo, segundo a imprensa, e
não queria correr riscos. Era a primeira vez que saía àquela hora. Sempre procurara
os horários de maior movimento. Olhou para trás. Pensou ter ouvido passos. Ninguém.
Imaginação apenas. Seus olhos e ouvidos ficaram mais atentos.
A rua neste momento parecia
comprimi-la em seus medos e angustias. Num poste uma luz piscou e apagou-se escurecendo
a rua. A cada passo parecia que o chão, gelatinoso, engolia seus pés. Medo. Pensou
em ligar para alguém. Quem? Era o preço.
A rua parecia estreitar-se
abafando-lhe e sufocando-lhe o peito. Sentiu medo. Lembrou que há um maníaco solto
na cidade. Não queria ser ela a próxima vítima. Pensou em seus sonhos. Olhou para
trás. Interessante como os olhos veem de acordo com o medo. Faltava apenas um
quarteirão para o destino. O medo nos trai.
Uma chuva fina começou a cair. Soltou
uma imprecação. Pensou ouvir passos. Pensou em correr. Uma das vítimas foi
encontrada pelas redondezas. Não queria ser a próxima. Olhou novamente para
trás a fim de perscrutar o ambiente. Nada atrás de si. Ao se voltar para a
frente sentiu a pressão de dedos maléficos em sua garganta. Sentiu o chão
fugir-lhe aos pés. O desespero lhe tomou o coração. O horror inundou-lhe os
olhos. Não conseguia gritar. De sua boca apenas grunhidos. Em seus olhos o
horror. Em seus olhos a tristeza. A dor que sentia não era pela pressão
daquelas mãos assassinas. Sua dor era pelo que elas lhe roubavam, pelos sonhos,
pela vida. Uma lágrima, sua última, escorreu em filete de seus olhos misturando-se
às gotas da chuva anunciando seu fim. Um baque surdo no chão foi o último som a
ser ouvido.
O algoz, do sobretudo, acendeu um
cigarro, sorveu um trago e se pôs a caminho. No céu a lua minguante, no rosto um
sorriso leve e na boca o cigarro.
A rua em silêncio chora pelos
sonhos roubados.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
REMINISCÊNCIAS, QUE É O QUE DE MIM RESTA, CORROEM-ME A ALMA.
Dali
donde me encontro, na janela, em um quarto do terceiro andar, observo o pátio
abaixo de mim que se encontra só. Como a mim. Tem sido assim desde há muito.
Não me recordo de quando, apenas lembro que foi no outono, período em que as
árvores desnudam-se, que adentrei pela primeira vez aqui, donde somente eu saí,
e que se tornou a partir de então, um local de idas e vindas. Nossas vidas, tal
qual lago em fim de tarde que espelha o ocaso e beija com suas águas tépidas e
calmas um cisne que desliza indolente sobre o espelho d’água, era,
simplesmente, amor. Amor este que refluía de nossos corpos e embebia o ambiente
e inebriava a todos que nos circundava. Éramos felizes. Não que tenhamos deixado
de sê-lo a partir dali, mas o amor despiu-se da felicidade e travestiu-se da
agonia e da compaixão. Este sentimento, a compaixão, eivado de ambiguidade, que
enobrece a quem doa e humilha a quem recebe foi minha companhia mais próxima e
sugou todo o amor que havia em mim. A ti, como alívio, o fim. A mim, órfão... dor,
desgraça e solidão foi o que restou.
Do
tempo já assumi minha subserviência e já não sofro mais e já não vivo mais.
Do dia apenas uma luminescência
incipiente que teima em me despertar para a realidade.
Da noite que me acometeu o
espírito e absorveu tudo de mim, malgrado-a por não me ter permitido fitar os
olhos daquela que me permitiam ver o mundo por mais tempo; mas, também, bendigo-a
por me permitir o sonhar e me aproximar do que um dia foi e por me esconder do
que hoje não é.
Dos amigos que conquistei,
propositalmente, afastei-os todos, um após o outro, sem pretexto, para que não
acompanhassem a minha definha e não se compadecessem de mim. Ojerizo a
compaixão.
Reminiscências, que é o que de
mim resta, corroem-me a alma.
De há muito que deambulo por este
lugar em busca do que perdi. Inicialmente maculado de esperanças, mas o tempo
etéreo, irresoluto, fez dissipar aquela enchendo-me a alma e a vida de
tristeza, melancolia e desesperança. A esta, não posso permitir a vitória, sob
pena de admitir que a morte golpeie minha porta e se aposse de meu espirito. Em
vão. Herculeamente tento resistir, mas devo confessar com grande tristeza, que
a vitória não me será companheira. Em lixo, a mim custa reconhecer pelo que
fui, me transformei após ver-te refastelar-se com o banquete da morte e
enternecida beijar-te a face.
As paredes dali donde me encontro
já não mantêm a cor original. Esvaneceram com o tempo. Como a mim. A mobília
carcomida pela ferrugem já não mais se presta. No salão principal, nos
corredores, nos quartos, na sala de choque que conheço mais do que a mim próprio,
o que se reflete é a máscara da tristeza e da solidão. Contraditoriamente, o
que antes era vivo, multifacetado, hoje agoniza e chora em dor pela ausência e
pelo silêncio de tantos. O drama que ontem aqui era escondido não difere do que
se esconde hoje.
Onde estás, ó, amante doce e
terna que me encobrias e me devorava dos anos a vida em mais doce alegria. Onde
estás? Pergunto-me melancólico.
Aqui
donde me encontro, da janela do 3º andar, observo o pátio - que tanto conhece meus passos, taciturno,
ignorando-me com sua empáfia, está só também. Como a mim.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
O Assassino do Sobretudo de polietileno preto - Assassinato sob a chuva rala
A chuva fina e intermitente que
caía produzia um espelho na rua onde os únicos reflexos eram seus medos e suas
angustias.
Dali donde se encontrava, na
esquina, recostado na parede, sob a marquise, com a luz opaca da lua
camuflando-o e travestido com um sobretudo de polietileno preto, podia divisar
todo o movimento nas quatro direções. Precisava apenas espiar e esperar. Ele
sabia que aquela era a hora. O tremor nos lábios, o olhar nervoso, a respiração
ofegante denunciavam sua condição de completa submissão a um estado que ele
próprio sabia não ser forte o bastante para superar. Tornara-se incontrolável. Não
queria em sua sã consciência fazer aquilo, é verdade, mas tinha de fazê-lo. As
ruas, os becos, a luminescência parda da noite, tudo ali contribuía e o
incitava. Amainar sua ânsia era condição subjacente para diminuir seu estado de
consciência deplorável naquele momento. Olhou o relógio: 2:36. Uma moto cruzou
a rua em velocidade. Não se distraiu. Observou as casas pequenas e imaginou
suas vidas, por trás dos muros, também pequenas.
Lembrou a primeira vez. Como em
vídeo tape viu-se a si próprio esparramado no sofá a ver televisão. Algo o
incomodava naquela noite. A insônia, talvez. Não sabia. Nunca soube. Era
inverno. A chuva fina espelhava a rua. Viu seu semblante sereno, seu olhar
tranquilo. Seguiu a si mesmo quando levantou e perscrutou a rua antes de abrir
a porta. A rua em silêncio, estava agora nua. Caminhou a passos lentos
encoberto pela sombra da noite. Na praça que ficava a poucos metros dali
acendeu um baseado. Na primeira tragada, deliciando-se com o roçar dos lábios
no papel num simulacro de beijo, aspirou a fumaça com volúpia abraçando-a em
seu peito como alguém abraça a outrem de saudades e baforou observando a fumaça
evoluir pelo espaço desenvolvendo movimentos aleatórios, dançando ao sabor da
brisa e da imaginação, compondo imagens que só a puerilidade de uma criança é
capaz de perceber. Ficou assim por minutos, saboreando o instante,
deleitando-se com o silêncio, observando o farfalhar das folhas como se o tempo
inerte estivesse. Ouviu vozes e risos. Inconscientemente circundou a árvore
onde estava recostado para não ser visto. Não queria naquele momento traçar uma
conversa inútil com pessoas, também inúteis, cheirosas a álcool. Acompanhou-os
com a vista até desaparecerem do raio de visão.
Observou a fachada de sua casa
deteriorada pelo desleixo, como a si. Isto o fez lembrar de que quando criança,
naquela mesma casa, as mãos brutas de seu pai, o cheiro de álcool, sua mãe em
lágrimas, sua mãe em dor. O fim. E o inferno que viria após este dia. Definitivamente
precisava sair dali. Os vizinhos, aqueles móveis rotos, aquele cheiro
amofinado, aquelas fotos de família simulando um lar feliz que não representava
a realidade do que foi, o entediavam. Ficou imerso no não-ser de sua
não-existência. Ao sorver sua última tragada não se deu conta de que alguém se
aproximava e com um movimento de defesa rápido cravou suas mãos no pescoço e
pressionando com força e violência não permitia reação. Nos olhos da vítima via
a si próprio, via os dedos de seu pai num abraço mortal, via a dor de sua mãe, viu
o temor que sentiu naquele e após aquele dia. Viu-se afastando-se em silêncio e deixando atrás de si o silêncio
do não-existir.
O silêncio foi quebrado. A linha
tênue do tempo que une sonho e realidade foi rompida trazendo-o a realidade por
passos na calçada. Olhou o relógio: 2:39. Espreitou e lançou-se como algoz,
esganando sua vítima com força e violência sem permitir reação, sem temor ou
tremor. Olhares fixos. Bocas mudas. Tudo como dantes.
Tendo o silêncio e a noite e a
rua por testemunha, após poucos minutos, e com a quietude da vítima, lançou-a
ao chão produzindo um som abafado. Na vítima, os olhos intumescidos pela dor e
na boca um grito de dor... silenciado.
Acendeu
um cigarro, ajeitou o sobretudo de polietileno preto e com a luz opaca da lua camuflando-o desceu
a rua em silêncio fitando sua própria sombra na calçada molhada. Seus olhos
serenos, não traziam raiva, não traziam medo, na boca o cigarro e um sorriso
leve.
A chuva
fina que caía chorava a dor do não-existir.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Na sala de espera
Putz!... não faz isso, não! Você não gosta? Adoro. Por isso
que eu faço. Eu gosto, mas aqui não. Por que? Tem muita gente. Eles não estão
nem olhando. É? Mas é perigoso. Qual nada. Você já imaginou a vergonha? Estão
todos no celular, ninguém tá olhando. Justamente, alguém pode estar filmando. E
daííí, com essa tensão tudo fica mais gostoso. Eu sei, mas tome cuidado. Né
gostoso? É. Mas...pare! Não! Aquela mulher ali da frente acho que percebeu.
Qual? A morena gorda? Claro, só tem ela na nossa frente. Qual nada. Ela
percebeu sim. Duvido. Veja como ela olha pra gente. Aposto que ela tá é gostando
de ver. Tem muita gente aqui, hoje. Pare de se preocupar. Estou tentando. Deixe-me
fazer de novo. Aperte devagar. Está gostoso? Demais. E você queria que eu
parasse. Isso, circula e aperta. Você é danadinho. Número 23. É o seu? Não, o
meu é 26. A gorda continua olhando. É? Olha o que eu vou fazer. Ei... ei... ela
tá desconfiada. Relaxe que ela tá de olho fechado. Se você fizer isso ela vai
ter certeza. Fique frio que tá todo mundo ligado na TV. E se ela fizer
escândalo? Não vai, não. A gente sai daqui direto pra delegacia. Eu acho que
ela tá se deliciando. E se tiver circuito interno e cair na internet? Que nada.
Eu aposto como ela tá danada imaginando o que a gente tá fazendo. Que fique só na
imaginação. Para, tira a mão dai. Por quê? Você tem que respeitar as pessoas.
Que naaaada. É perigoso. O que quero é sentir o ... número 24. Porque você
sorriu? Por nada. Ela olhou pra gente e sorriu. Número 24. E se ela achou que...
a gente... 24. Não achei graça nenhuma. Se ela desconfiou é problema dela. Ela
tá digitando alguma coisa. Esquece ela. Deve estar comentando com alguma amiga.
Deixa de teu estresse. Humpf! Não tem ninguém aqui olhando pra gente. Ok, vou
ficar bem. Relaaaxe. Tudo bem, tudo bem, vou relaxar. Ótimo, assim é melhor. E
se ela viu a sua mão? Onde? Não sei, tô nervoooso. É claro que ela não viu
nada. Viu sim. Viu não. Viu você com a mão aqui e desconfiou. Putz! Que neura. Será
que foi porque você sorriu na hora do 24. Acho que sim. Seu senso de humor é
ridículo. E você é um medroso. E você é um b.a.b.a.c.a. Mas você gosta. Claro
que gosto. Então relaxe um pouco. Vou tentar. Feche os olhos. Tá bom. Os dois.
Tô fechando. Veja como é bom. Aperta com mais força. Isso, mantenha os olhos
cerrados. Como é bom... Número 25. A gorda saiu? Não. Qual o número dessa...
gorda? Feche os olhos. Tô fechando. Beleza. Hum! Como é bom. Delícia né? Adoro
isso. Vou mais rápido. Isso... Número 26. Ih, lascou tudo. O que houve? É o meu
número. Lascou mesmo. E agora como é que vou levantar e passar na frente dessa gorda. E eu sei lá. Caraca.
Te vira, é contigo e a sorte. Eu disse pra você parar. Vou tomar um cafezinho.
Não, não saia agora não. Número 26. Você levanta primeiro e vou atrás de você.
Tá louco. Foi você quem começou isso tudo. Sim, mas você vir trás de mim, assim,
é complicado. Seu babaca. Essa gorda vai pensar o que de mim? Caraaaca. Te vira. Como vou levantar assim
desse jeito... Número 26. Essa senhora vai na minha vez. Vai perder a sua vez?!
A senhora pode ir no meu lugar. Você não quis me ajudar. Eu fico com o seu número.
Qual o número dela? 69.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Poeticamente: Fragmentos de um dia qualquer.
Poeticamente: Fragmentos de um dia qualquer.: O coveiro naquele dia fazia a transferência dos ossos dos falecidos para o ossário a fim de liberar espaço nas catacumbas e permitir o ent...
Fragmentos de um dia qualquer.
O coveiro
naquele dia fazia a transferência dos ossos dos falecidos para o ossário a fim
de liberar espaço nas catacumbas e permitir o enterro de mais alguns
desafortunados. Quando retirava os ossos de uma das covas, uma mulher
aparentando uns trinta e tantos anos, morena, os beiços grandes pintado de
vermelho, um metro e sessenta de altura, talvez menos, um bucho grande,
trajando um macaquito verde-bandeira, bem acochado, um cinto marrom com uns
cinco dedos de largura no meio do bucho, uma meia-calça preta, toma o crânio da
mão do auxiliar e questiona:
_ Esta
não é a cova do meu pai? estão fazendo o que com a cabeça do meu pai?
_ A gente
só tava...
_ É MEU
PAI. É A CABEÇA DE MEU PAI.
_ Minha
senhora a gente só tava...
_ SÓ TAVA
O QUÊ? O QUÊ? É MEU PAI. NEM OS MORTO PODE VIVER EM PAZ.
_ Num
chore não mulé.
_ NUM
CHORE NÃO O QUE? É MEU PAI. E VOCÊS TUDO VIOLANDO A CATATUMBA.
_ A gente
só tava...
_ É MEU
PAI.
_ Me dá
essa cabeça sua destambocada. A gente tem que terminá nosso selviço. Toma essa
cabeça dela, lerdo.
_ Oxe,
porque eu?
_ Porque
eu to dentro da cova.
_ N.Ã.O T.O.Q.U.E
E.M M.I.M.
_ Calma
dona.
_ É MEU
PAI.
_ Pega
logo essa cabeça. Deixa de conversa com essa maluca.
_ NÃO
TOQUE EM MIM COM ESSAS MÃOS PODRES.
_ E a
senhora, com a cabeça encostada nesse peitão.
_ É MEU
PAI.
_ Pega
logo essa cabeça, home.
_ E se
ela gritá.
_ Se você
não pegá quem vai gritá sou eu. Peste, só me faltava essa. Me dá essa porra
dessa cabeça.
_ VOCÊ ME
RESPEITE.
_ Pegá
ela, seu lerdo. Não, espera.
_ É prá
pegá ela ou não.
_ Sim...
Não... SIM. Mas me tire daqui primeiro. Vá por ali, dê a volta e vê se não cai
nas cova aberta.
_ Se alguém
tocá em mim eu dou escândalo. É MEU PAI.
_ De quem
é essa cova que a gente abriu?
_ É de
Zabumba. Então é a irmã de Beto. Eitxa, é a mulé de Bodinho. Liga pra ele.
_ Oxe, porque
eu tenho que ligá se você é o coveiro e eu sou o ajudante.
_ Só me
faltava essa peste dessa catenga gorda, inchada, me aperreá. Me dá o telefone.
_ Vôte,
por que o meu?
_ Porque
eu tô sem crédito, lástima.
_ Oxe!
Então manda a prefeitura botá um telefone aqui.
_ É? Só
se fô prá os defunto falá com tua mãe. Me dá logo o celular.
_ Num
gaste meus bônus não.
_ É MEU
PAI...
terça-feira, 29 de julho de 2014
Não aconteceu como pensei que seria o que havia pensado.
A luz que
penetrava pela fresta da cortina feria-lhe os olhos, despertando-o. Deitado,
com o lençol cobrindo-lhe apenas o ventre e parte da coxa, tateou com o olhar o
ambiente para identificar onde se encontrava. Não reconheceu. Os poucos móveis,
a decoração sóbria, a cortina de um tom escuro, a TV desligada; Nada lembrava
um lugar conhecido. A cama redonda o fez esboçar um olhar inquiridor. Isto o
chateava. Detestava pensar ao despertar. Fazia-o lentamente, preguiçosamente. E
perquirindo-se começou a pensar como fora parar naquele ambiente, até o momento
desconhecido, e em qual companhia, que o despiu por completo.
Da noite
anterior lembra de quando chegou ao apartamento de Adriano, seu amigo do
trabalho, para comemorar junto com outros o aniversário daquele. Lembra que
bebeu um pouco, acha, de uisque. Lembra de ter conversado com Carlos assim que
chegou. Colega novo que começara naquele dia. Moreno de compleição mediana. Só
o achou um pouco afemeado. Lembra do Antônio... da Luana... de Marcos e..
lembra, ainda, já no fim da festa de ter conversado com... Analice. Analice. Vizinha
de sala no trabalho. Morena sinuosa, portentosa que permeia, volta e meia, suas
lucubrações. Seus cabelos, negros, flutuam ao menor movimento. Seus seios
fartos – adoro mamas grandes, pensou sorrindo, convidam a um olhar deleitoso.
Nutria um desejo voluptuoso pelo seu sorriso. Aquela boca marrom carnuda que
era do tipo que implorava para ser beijada. Desejava-a como dois amantes se
desejam. Aquelas calças justas delineando a sensualidade sinuosa de seu corpo. Aquelas
blusas fininhas, quase transparentes, exibindo detalhes de um desejo. A pele
morena - suave, os pelos - poucos, descoloridos. Que inveja nutria por aquelas
roupas que a cobriam por inteiro; quanto a mim, não me permitiam os escrúpulos nada
além de desejos. A cada divagação sentia o pulsar intenso e quente a ponto, às
vezes, de achar que iria romper a costura do jeans. O compromisso dela o
inibia. Por vezes desejava esquecer a razão, desejava não ter escrúpulos. Por
vezes lançava-se da mão na solidão etérea da edícula. À consciência, morte!,
por não permitir desvarios. Refém de si mesmo é o que era. Assim, imaginar,
então, é o que restava. Imaginar aqueles pelos se eriçando ao roçar suave de uma
pedra de gelo sobre a coxa. Imaginar a boca sussurrante, arfante, ao roçar-lhe a
língua em seu seio. Imaginar seus olhos semicerrados ao beijar-lhe o pescoço.
Imaginar o contorcesse do corpo ao roçar a ponta do nariz suavemente sobre o
abdome em movimento lento e rotatório fazendo-a sentir o calor da respiração.
Imaginar o ambiente em harmonia com os paralelismos e perpendicularismos dos
movimentos imitando um balé silencioso onde a música é ditada pela respiração e
sussurros emitidos por bocas úmidas, lânguidas em um palco cuja plateia são os
próprios corpos refletidos nus pelos espelhos. Imaginar ouvir sua voz maviosa
pronunciar palavras ininteligíveis. Imaginar beijar-lhe a boca demoradamente
sugando-lhe todo seu erotismo. Tudo isso excita-o sobremaneira deixando latente
e visível esta condição.
O som do
chuveiro aberto trouxe-o à tona. Sentou-se à beira da cama. O frio correu-lhe
os ossos. Abraçou a si mesmo a fim de aplacá-lo. Ciscou o chão em busca de uma
sandália que não existia. Pensou em ir espreitar pela porta sorrateiramente. A
curiosidade por saber com quem havia dormido era forte. Teria sido Analice
(musa das quimeras)? Ou de repente...
outra qualquer. Essa ausência de certeza o acabrunhava. Ouviu o som da torneira
fechando, o silêncio do chuveiro e imaginou ela estendendo o braço, pegando a
toalha e deslizando-a pelo corpo. Imaginou-se toalha. Mentalmente calculou quantos
passos precisariam para sair do box e chegar até a porta. Ajeitou-se
visualmente. Passou a mão no cabelo, fazendo às vezes de pente. Baforou na mão
para sentir o bafo. Só fedia a uísque. Sentiu ela distender o braço, tocar o
trinco, puxar a porta. De pé segurando o lençol sobre a cintura, cobrindo sua
excitação, ensaiou um sorriso tímido antecipando o que queria ver. Ao abrir-se
por completo a porta um sorriso pálido, amarelo, invadiu-lhe o rosto, os olhos
abriram-se em estupefação, o lençol escorrega caindo-lhe sobre os pés, a boca
abre-se em um misto de exclamação e interrogação e frustração e... e...
Carlos!?
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Sobre um lugar qualquer
Sobre um lugar qualquer
Enquanto isso,
n’algum lugar...
Os tons violáceos da
madrugada subjugam-se ante a barbárie pictórica do alvorecer.
Aos poucos o que era
informe assoma. O negrume desvanece e podemos ver um alpendre em madeira bruta
sem pintura. Uma porta, entreaberta, com venezianas incompletas deixava à
mostra um pouco do seu interior. Na janela uma cortina de tecido semelhante a
um véu esvoaça ao vento deixando transparecer alguns rasgos e manchas
amareladas. Os vidros, alguns quebrados, acumulam poeira. Da pouca mobília, e
pobre, apenas pedaços. Pelo chão restos de cadeiras e recostada na parede uma
mesa; sobre, um vaso com flores de plástico, uns poucos talheres e alguns
pratos em cacos. Um sofá gasto pelo uso e tempo, uma mesinha de centro com
algumas incrustações a faca e nas paredes, de um verde nauseabundo, algumas molduras
vazias, tentando esconder, talvez, algo o que um dia não foi. Dependurado na
parede em frente a porta um quadro retratava a santa ceia.
O chão pobre de
pouca vegetação demonstra a acidez do lugar.
Nesse ínterim,
n’outro lugar ...
O sol pardacento
derrama indolente sua preguiça sobre o chão pedregoso. Não há pegadas nem
vestígios d’alma.
Algumas flores dispostas
cuidadosamente no alpendre denotam o desvelo a aquilo o que um dia foi. A porta
almofadada de um azul suave, aberta, convidava a observar. Na mesa coberta com
uma toalha de renda alguns talheres e pratos zelosamente dispostos, como a
esperar alguém. O sofá num canto e uma cadeira de balanço a observar a porta.
As flores no jarro, sobre a mesa de canto, embebiam o ar com seu olor. Nas
paredes brancas retratos de pessoas que marcaram a vida dali. Na janela
envidraçada uma cortina branca confeccionada com um tecido leve, ao sabor da
brisa matinal, balouça, de alegria, por certo.
As flores, mesmo
sós, permanecem belas como devem ser.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Caía a tarde
Em lágrimas outonais sobre os
telhados urbanos
Neste dia que já se
Fez saudade
Acariciando a face nua da rua e
Embebendo a todos com sua
inquietante melancolia
a noite que chegava em nuances
pictóricas
por trás dos arranha-céus
com suas antenas e para-raios
seria, talvez,
um refúgio para tantos
que cansados de si mesmo
tentam esconder-se
de suas inquietações
em vão
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