Quem sou eu

Minha foto
Este alagoano de São José da Tapera, nascido em 1966, é maravilhado com a escrita e encantado com as letras. Procura traduzir em seu trabalho as inquietações da alma humana em suas relações interpessoais e consigo mesmo. Autor dos livros: O homem que virou calango (contos); Retratos Urbanos; Síndroma de Imunodeficiência Depressiva; Da dor do não, poemas; coautor de Caoticidade Urbanopoética do eu nulo, poesia; participação na 1ª Antologia da Confrafia: Nós, Poetas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Escondo por trás 
de mim
nada além de
desejos
que são como um
espelho trincado
onde se vê apenas
fragmentos desconexos
de um todo

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

 
 
As flores choram
a sorte de um amor perdido
as mãos balançam ao vento
num aceno
os olhos escondem molhados
o não

como definição de dor.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014


...E agora
rogo as palavras
sua maior dor - o silêncio.


Transborde o cálice
de vãs pensamentos

vazio e silêncio é que de mim resta

Na parede de um branco nauseabundo - odeio branco,
um espelho translúcido por conta do tempo

Esparramado no sofá gasto pelo tempo
e uso
deleito-me em minha preguiça indolente.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O aço tornado Deus


O aço tornado Deus.

           O aço sibilou no espaço.
           O fio, frio e terrificante, ao cortar o espaço, emitiu um sibilo augúrio e em movimentos cortantes e rápidos, violentou, dilacerou o tênue cordão que une morte e vida, interrompendo, subtraindo violentamente esta.   

Igualou-se a Deus.

O corpo exangue tombou de chofre no calçamento quente em desesperante agonia e esvaindo-se em sangue chorava sobre a pedra derramando suas dores e alegrias que, talvez, um dia, viesse a ter.  Os olhos aterrorizados observavam atônitos a carne cortada feito fato, abrindo-se, expondo-se, mostrando a frágil fortaleza rompida, buscando além de si uma ponta de meada, um fio que viesse içá-lo do abismo em que foi jogado. As narinas bufantes como as de cavalgaduras em tropel, o corpo contorcido em dor, a cara no chão – em dor, o sangue misturando-se a areia, as unhas crispando o paralelepípedo – em dor, o corpo balbuciando seus lamentos últimos, a boca em gemidos, em dor, ao mesmo tempo em que vociferava impropérios chorava a dor em lamentos agoniantes, agonizando.

O ajuntamento que se formou ao derredor, por catequese pseudossocial, chorava a dor, compadecendo-se; questionava a dor, perquirindo-se; maldizia o infortúnio, escarnecendo do pobre diabo que agonizava, gritava a esmo por um socorro que teimava em não chegar. O tempo, despótico, seguia seu curso sem “se”, sem “senão”. O frágil corpo de alma recalcitrante definhava ao sol escaldante sobre o calçamento quente, em brasa. Seus olhos enevoados vertiam lágrimas de dor. Não proferia mais palavras, apenas grunhidos.  

Tudo isso era sinônimo de um fim que atingiu o seu clímax quando, não tendo forças, sua pobre alma em dor, solapa nas areias escaldantes do inferno e do sangue putrefato de seus inimigos sorve um cálice, igualando-se a eles; e nos seus olhos abertos refletiu-se a dor dos enjeitados ao tempo em que suas unhas crispavam o chão e sua boca em silêncio exprimia seu último sussurro seu corpo emudeceu, sua boca fechou, seus olhos cerraram-se em morte.

          Silêncio. Está vazio o espaço que fala por si só.

 Vazio. Está silencioso o espaço que fala por si só.
          A turba, antes irrequieta, inquisitiva, penalizada, como que por inércia foi silenciando, dispersando-se, afinal tudo terminara sem se, sem senão. Todos se foram. Apenas um corpo ficou. No meio-fio encostado em

um poste, acocorado, um corpo com rosto sofrido observava em silêncio, sem lágrimas em seus olhos ou vingança. A tez carcomida pela ação incessante, inclemente, despótica e voraz do tempo, emudecido, observava com os dedos entrelaçados como que em oração. Talvez rogasse naquele instante um perdão, talvez. Nunca saberemos. E consolando-se a si mesmo pela ausência, por aquilo que nunca foi, esperava, agora, sozinho, o rabecão.

 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Quando o dia já é saudade



O silêncio
Envolvia a sala
A cortina balouçava
Suave
Ao som das
Folhas no jardim
A penumbra reinante
Transporta-me
A reminiscências
Que um dia
Prometi esquecer
E que como um flash
Atormenta-me
Em situações onde
Encontro-me vulnerável.
Apartate-me de mim
Oh, dores
De minha alma
O som de passos no Soalho
Recobra-me a realidade
Tento na penumbra
Vislumbrar algum vulto
Pura imaginação.
Volto o olhar para
A janela.
A rua em silêncio, molhada pela chuva
Fina que caiu
Esconde-se por
Trás da cortina
Ligo o rádio.
Ao som de velhas canções
Ensaio passos
De um balé
Imaginário
Tal ave deslizando
Sobre o lago silencioso
Em fim de tarde outonal
Quando o dia já é saudade.
Sem me aperceber
Adormeci no sofá.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Odeio silêncios que incomodam




Incomoda-me
Ter que falar tolices
Para parecer estar a vontade
Quando não estou.
Cuspo assuntos inúteis
Para uma conversa também, inútil,
Melhor seria, a meu ver,
Não dizer nada,
Apenas sorrir.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fragmentos do cotidiano


Fragmentos do cotidiano


O coveiro naquele dia fazia a transferência dos ossos de alguns mortos para o ossário a fim de liberar espaço nas catacumbas e permitir o enterro de mais alguns desafortunados. Quando retirava os ossos de uma das covas, uma mulher aparentando uns trinta e tantos anos, morena, os beiços grandes pintados de vermelho, um metro e sessenta de altura - talvez menos, um bucho grande, trajando um macaquito verde-bandeira bem acochado, um cinto marrom com uns cinco dedos de largura no meio do bucho, uma meia-calça preta, toma o crânio da mão do auxiliar e questiona: esta não é a cova do meu pai? ESTÃO FAZENDO O QUÊ COM A CABEÇA DE MEU PAI? A gente só tava. É MEU PAI. É A CABEÇA DE MEU PAI. Minha senhora a gente só tava. SÓ TAVA O QUÊ? O QUÊ? É MEU PAI. NEM OS MORTO PODE VIVER EM PAZ. Num chore não mulé. NUM CHORE NÃO O QUE? É MEU PAI. A gente só tava. É MEU PAI. Me dá essa cabeça sua maluca. A gente tem que terminá nosso selviço. Toma essa cabeça dela, lerdo. Oxe, porque eu? Porque eu to dentro da cova. N.Ã.O   T.O.Q.U.E   E.M   M.I.M. Calma dona. É MEU PAI. Pega logo essa cabeça. Deixa de conversa com essa maluca. NÃO TOQUE EM MIM COM ESSAS MÃOS PODRES. E a senhora, com a cabeça encostada nesse peitão. É MEU PAI. Pega logo essa cabeça, home. E se ela gritá. Se você não pegá quem vai gritá sou eu. Peste, só me faltava essa. Me dá essa porra.VOCÊ ME RESPEITE. Pegá ela, seu lerdo. Não, espera. É prá pegá ela ou não. Sim. Não. Me tira daqui primeiro. Pega essa maluca. Vá por ali, dê a volta e vê se não cai nas cova aberta. SE TOCAR EM MIM EU DOU ESCÂNDALO. EU VOU GRITAR. É MEU PAI. QUE ABSURDO MEXÊ NA COVA DOS MORTOS SEM ELES SABER. De quem é essa cova? É de Zabumba. Então é a irmã de Beto. Eita, é a mulé de Bodinho. Agora que me lembrei. Liga pra ele. Oxe, porque eu tenho que ligar se você é o coveiro e eu sou o ajudante. Só me faltava essa peste dessa catenga gorda, inchada, me aperreá. Me dá o telefone. Vôte, porque o meu? Tô sem crédito, lástima. Manda a prefeitura botá um telefone aqui, então. Só se for prá os defunto falar com tua mãe, né? Me dá logo o celular. Num gaste meus bônus não. É MEU PAI...

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Poeticamente: Noite dessa em conversa com um amigo, o mesmo me d...

Poeticamente: Noite dessa em conversa com um amigo, o mesmo me d...: Noite dessa em conversa com um amigo, o mesmo me dizia como o tempo estava passando rápido e eu lhe respondi que não. O tempo é o mesmo, se...
Noite dessa em conversa com um amigo, o mesmo me dizia como o tempo estava passando rápido e eu lhe respondi que não. O tempo é o mesmo, sempre. Dramaticamente imutável. Vejam que incoerência. O tempo ... é imutável, não muda, é sempre o tempo. Porque, a grande questão é: que valor damos a ele?, ou melhor, não damos. Tentamos subjugá-lo, dominá-lo, mas quão inúteis são nossos esforços porque não é ele o agente ativo. Ele é estático e imutável. Acontece que estamos devotando demasiada atenção a questões que nos "roubam" o tempo ao invés de atermo-nos com questões que nos poupem tempo.